cai a saia, ninho no chão

14 de Setembro de 2007 @ 13:49 por porcas

o dia veio raiando e eu correndo atrás da noite correndo atrás do japão, como se fosse o indiana jones esticando o braço pra pegar o chapéu q caiu do outro lado da porta

consegui alcançá-la através de um sono mal dormido, desses de manhã

faço um checape e percebo q nada demais se apagou. ainda com algum domínio da língua portuguesa, o suficiente pra pedir um marmitex; todos os dentes na boca, fora os que eu nunca tive.

não sei o q vai sobrar de uberlândia depois desse fim de semana da jambolada. é certo q ela não vai alcançar as noites q vão passar. o chapéu, também, baubau. um ou outro dente talvez se perca. uberlândia vai ficar nua, cabeça feita.

Evoé Baco, pode passar q a casa é sua.

ensaio

11 de Setembro de 2007 @ 04:04 por porcas

dessa madrugada em absoluto silêncio posso antever a jambolada acontecendo, todas as pessoas indo em vindo, de lá pra cá, sorriso ou lágrimas, matar ou morrer

nessa madrugada sou um paranormal do fantástico abolindo o tempo

estou sozinho agora em frente ao palco da jambolada

silêncio no local vazio

um grilo lá fora dá testemunho da existência do bairro custódio pereira

o escuro no recinto ecoa meus passos de sapato toc toc

estarmos todos sozinhos nessa madrugada pré-jambolada nos aproxima

qdo estivermos todos juntos, suor do seu corpo esquentando o meu, estaremos mais próximos ainda

ainda q, no escuro dentro de mim, ecoem os sapatinhos toc toc de quem caminha sempre sozinho, pq o máximo de mochila q posso carregar não pode ultrapassar os 10 % do meu peso corporal.

26 de Agosto de 2007 @ 11:34 por porcas

fonte fogo 1 - fonte fogo 1

show uberlândia praça ontem

linda foto a nossa na rua na praça nadando

quem alucinou viu uma fonte no centro, corpo de bombeiro empunhando mangueira grosso calibre camiseta molhada colada no peito não é à toa que iansã seja a deusa do corpo de bombeiros

iansã, deusa musa

água subindo caindo em cima de gente festiva

bom ver o jogo de luz do palco se refletir na boca engordurada do senhor comendo espetinho

bom achar q tinha pula pula onde crianças como água ganhando ares ganhando chão, mas na verdade não tendo nada de pulapula, confusão com outras praças outros tempos

sem muita certeza sobre quem real quem vivo quem fantasmas quem vivo dentro desse soul eu

sem imperativos de olha pra mim

ser feliz, comer espetetinho onde reflitam azuis e rosa

quanta verdade há numa boca engordurada

boca das meninas engorduradas de vida, pra onde elas vão se foram virão? algum dia serei chão para seu contra-vôo?

no meu chão mora uma poça de água de chuva onde rosam azuis, é por lá que ganharemos o céu num salto contra-piso

linda foto a nossa na rua na praça nadando

as crianças todas de nossa convivência proferindo rock n rolls a plenos pulmões, o paulão filho da biba que tirou a camisa e fez com mãos e pés um groove imaginado de bateria

a filhinda da eliana que quis conhecer o camarim onde ricardinho fazia dominós com suquinho de caixinha, matéria para a sua série de videos: videolarica

a filhinda da eliana naquele camarim parede chãos negras pra amenizar a fumaça a gente dizendo ai ai desculpe o gelo seco

a daniela borela rindo com os porcas todos ao redor ela já meditando mil acordes chamando como pode seus deuses banhados a ouro

os deuses de ouro da daniela tomam de assalto o recinto ao som de vapor barato

eu achei q ia incorporar algum, incorporei

daniela borela

antes de tudo, porcas borboletas antropofagicamente devorando e rindo muito com a idéia: pelo jeito vai dar ninguém

aquela história comoéquié? festacabada musicosapé

expedição à própria casa

20 de Agosto de 2007 @ 08:14 por porcas

expedi    o20 1 - expedi    o20 1
A cidade é um patê de cimento que endureceu sob nossos pés indiferentes. O passar de dias e noites sobre nossas cabeças tem o poder de pentear os cabelos. Pés firmes e cabelos bem-penteados, entre montanhas e feijões tropeiros, o Porcas Borboletas e a produção do Festival Jambolada estão em Belo Horizonte.
O que é o acontecer de uma cidade? Carinhas apressadas passando no centro congestionado? A programação da agenda cultural? O tilintar de latinhas de crack sob os viadutos cheirando a mijo? Quantas belo horizontes poderão ser tocadas pela mão boba do Porcas Borboletas? Jambolão vinga entre montanhas?
De quarta-feira passada, dia 15 de agosto, até a sexta-feira, Uberlândia aconteceu junto com Belo Horizonte. Na quarta, o Porcas Borboletas se apresentou ao lado de Daniela Borela, no Stereoteca. Quinta e sexta-feira, n´a obra, rolaram as prévias da jambolada.
Tremendo abacaxi para a curadoria escolher duas entre as dez bandas. Foram duas noites sensacionais, no sentido literal dessa palavra. Tantas bandas com nível tão alto de informação colocaram sob suspeita a consideração da noite como uma “prévia”. Nada ali era prévio, meio para alguma coisa. Presente respirável, a jambolada acontecendo em beagá é a abolição dos 520 km entre uberlândia e a capital de todos os mineiros. Caiu finalmente o Muro.
Sobre o show do Porcas, ai ai ai. Mais uma prova de que a transa está intensa entre a mineirada. Este blog nem vai falar nada, mas vai fazer o link para o blog nalarga, da Cristiana Brandão, que fez uma cobertura extraordinária de tudo.

Cuiabá

24 de Maio de 2007 @ 16:42 por porcas

picol   mordido - picol   mordido

Sobre algo muito bom, mas muito bom mesmo, não há o que se falar. Qualquer tentativa será em vão. “E como foi esse filme?”. “Nem te conto”. “Indescritível”. “Te falo nada”. Muito menos ingrato é dizer sobre alguma coisa mais ou menos, meia-boca. Não se corre o risco de ficar aquém, de errar na mira. Mais vale uma puta crítica de um livro mais ou menos que uma crítica mais ou menos de um puta livro.

Já que esse blog está fadado ao fracasso (triste sina, relatar grandes momentos), vamos logo ao assunto: a casa fora do eixo é um machado de assis, um clássico da literatura, a inveja de cervantes, tira essa mão do bolso do capote, fiodor dostoievski!

Nosso guitarrista moita mattos, que já não é mais tão jovem mas continua sábio, defende sempre a tese de que uma boa viagem começa no começo. Pode parecer óbvio, é mesmo, mas temos aqui grande sabedoria: dá pra sacar quando o circo vai pegar fogo antes de começar o espetáculo. É possível pressentir o cheiro do anjo (demônio?) do rock em suas rondas de aquecimento. Cuiabá, maio de 2007:o conde drácula sorri por trás da capa, fiodor dostoievski destila alguma inquietação em seus dedos aquecidos dentro do bolso do capote, a cidade amanhece - acabam de chegar os últimos porcas borboletas, via eucatur.

Por trás da capa do tempo, o-que-ainda-não-foi-mas-que-um-dia-terá-sido.

Rapunzel joga suas tranças. Didi Mocó diz abre-te cézamo. Moisés avalia ser possível a travessia do mar vermelho. O sultão adormece menino nos braços de Xerazade. Lázaro resuscita. Thunder thunder thunder cat ô! Ramones: one two three four.

A Casa Fora do Eixo vive disso. Da anunciação fatal, palavra virando ação, o verbo se fazendo carne de soja, comida quentinha da melhor servida de graça pro Brasil inteiro. A Casa Fora do Eixo é um laboratório, o pessoal do Espaço Cubo trabalha (e como trabalha) de jaleco. Tem tubos de ensaio (o cubo é mágico) de onde sai fumaça. Matéria da alquimia praticada lá é o Tempo. Por trás da capa do Espaço cubo, querem saber o que tem?

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Moita Mattos defende em alguma roda que o pau vai quebrar, que isso dá pra perceber quando se diz oi pra turma. Dizer oi para o pessoal do Cubo é coisa pra se esquecer jamais. Mergulhar em cada abraço, o deus que mora em mim saúda o deus que mora em ti, rever velhos amigos, onde fica mesmo o banheiro?, como é bom mijar feliz…

Depois, percorrer as salas do Espaço Cubo (que fica no centro, e que não é a Casa Fora do Eixo, onde rolam as festas, que fica em frente à UFMT). Não dá pra descrever o Cubo aqui, é uma coisa grande demais, mais vale acompanhar o blog: www.espacocubo.blogger.com.br.

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A noite é um bolso.

Enfiar as mãos.

Primeiro show da noite: Bucéfalos: o vocalista sabe que rock é matar ou morrer, toca com botas de pugilista, pratica abdmoninais antes do embate. Vence!

The Melt: fogo alto, fogo alto pra supitar panela. Supita!

Porcas Borboletas: puta que pariu, abre-te sésamo, vade retro, porra caráleo, quem for homi cospe aqui. Muita gente cantando TODAS as letras e riffs e ritmos da banda. A carta de Lembrancinha declamada por todo mundo. Momento absolutamente inesquecível, Porcas Borboletas é… antes/ depois Casa Fora do Eixo. (vale a pena conferir a cobertura do blog Hellcity, tá sensacional)

Lord Crossroad, Macaco Bong, tem q falar nada não. Quem for homi clica aqui.

Fomos de ônibus, voltamos voando, flanando, nas nuvens, dentro do busão da motta. Há muito tempo não rolava isso, voltarem todos os músicos do Porcas Borboletas no mesmo ônibus. Pessoal tá mais junto que nunca. Mas… e o sétimo porcas, o Talles Lopes?

O Talles não foi dessa vez. Ficou em Uberlândia, junto com nossa equipe, agindo por trás da capa do tempo, tramando a próxima cartada: a Noite Fora do Eixo, a ser realizada agora, dia 26.

Dentro desse bolso tem coelho, louco pra se multiplicar. Como convém a coelhos brancos de olhos vermelhos, tenho dito?

Meu coração é um IPod

28 de Abril de 2007 @ 10:23 por porcas

careca - careca

Fazer uma canção é impossível. E o fato de existirem milhões delas não desmente isso. Não adianta recorrer a fórmulas, algo como canção = música + letra. O total, nesse caso, é muito mais que a soma das partes. Palavra que parece nome de perfume, e que nesse caso, para designar a natureza misteriosa da canção, cabe muito bem: amálgama.

Olha, é a nossa música…

Valia a pena fazer uma canção chamada “A bolachinha de Proust”. Em busca do tempo perdido começa assim, a partir do lampejo de memória desencadeado pela mordida na bolachinha. O cara morde a madeleine (nome muito mais bonito q cream cracker, confere?) e vem na cabeça dele aquele monte de lembrança. Música e perfume - e sabor - têm esse poder: colocar o coração antes da cabeça.

Sinto o perfume de uma menina que passa, vem no seu rastro uma época inteira. Ouço no quiosque deixa eu penetrar na sua onda, deixa eu penetrar na sua praia, e aquele amor supostamente passado aparece e diz, fala negão, bom dia, tamaí na área, se derrubar é pênalti.

Aqui cabe essa fórmula: vc incorpora uma música, um perfume, à sua sensibilidade, e muitos anos depois acessa essa sensibilidade perdida (perdida?) através daquela música, daquele perfume. Amálgamas.

Isso faz lembrar um amigo ao telefone com a ex-namorada às 5 da manhã, reclamando já quase sem energia: porra, vc partiu e deixou todos os meus discos banguelas. Banguelas? Sim, banguelas. Tenho sempre que pular essa faixa, aquela. Nossa, essa música não, passa pra seguinte pelamordedeus.

Impressionante esse link entre naturezas diversas: o q está mais dentro amalgamado com o que está mais fora.

Tem algo nesse sentido no blog do danislau:

david bowie longe demais nisso que o pop tem de criar inflexões melódicas interpretativas em conecta sintonia com as inflexões afetivas também chamadas sentimento donde poder se falar em um habitat externo para o que antes só existia dentro

Imensa a possibilidade de a próxima composição do caetano se almagamar, digo, amalgamar, com uma paixão qualquer de um seu ouvinte qualquer. A madeleine lembra mais porque é fresquinha ou é fresquinha porque lembra mais? Essa música do Caetano é linda, preciso amar para alcançá-la! O inverso do previsível: um sentimento que venha no rastro de uma canção.

E se todas as canções constituírem um coração externo, coletivo, em carne e osso, batendo distante, mas junto, com esse coração vago, perdido aqui nas profundezas insondáveis da gente? É claro que uma canção por si só não é nada, não acontece, tem que ter um ouvido para existir. O sentimento também precisa do suporte animal, qualquer sentimento que exista independentemente de um ser vivo já resvala na esfera de deus, é deus-solto. Precisa do suporte animal, mas não precisa da madeleine. Mas o gostoso, em tempos de pop, principalmente, é o chamego entre o sentimento e sua trilha sonora, o ajuste entre eles. Deixar bater dentro da gente o coração de todo mundo. Deixa eu penetrar na sua onda, deixa eu penetrar na sua praia, e nesse vai e vem, nesse vai e vem, a gente se dá bem, a gente se atrapalha.

Cartas na mesa

2 de Abril de 2007 @ 12:14 por porcas

confus  o3 - confus  o3

Ano passado foi um ano e tanto para a história da música brasileira. Lançamentos à altura. De modo que 2006 se junta ao rol dos grandes anos da MPB, e se mistura com o 1969 dos discos tropicalistas; com o 1973 dos discos experimentais e world-musicais do Milton Nascimento (Milagre dos Peixes), Naná Vasconcelos (Amazonas), Caetano Veloso (Araçá Azul), Walter Franco (Revolver) etc; e com o 1993 dos discos maconheiros do Chico Science e Nação Zumbi (Da Lama ao Caos) e do Rappa (Rappa Mundi).
Em 2006, pra começar a enumeração, tivemos o disco roqueiro do caetano, o Cê. É. O HD furou. Acontecimento, porra.
Ainda nesse ano, veio o Qualquer, do Arnaldo Antunes. Entre os dois, essa semelhança: são fruto e testemunho da abertura de seus criadores à auto-invenção, à transformação, à reelaboração de seu próprio trabalho. O Cê é um disco único na discografia do caetano, como o é o Qualquer na do Arnaldo.
Mais: Tom Zé, eterno reiventor de si, pira tudo com seu danç-êh-sá; Arrigo Barnabé lança missa para Itamar Assumpção; Chico Buarque lança Carioca. Só gente grande lançando grandes discos, fazendo de 2006 um grande ano para nossa música.
Se 2006 foi o ano de gente grande, 2007 vai ser o o ano de gente crescendo. Porque teremos disco novo do Los Porongas, do Macaco Bong, do Vanguart, do Ecos Falsos , do Daniel Beleza e os Corações em Fúria (de quem mais? falaí.) O lançamento dos discos dessas bandas virá para jogar mais lenha ainda nessa fogueira onde arde a velha distinção entre mainstream e underground. O mainstream está cada vez mais underground, em termos de distribuição e divulgação, e o underground está cada vez mais mainstream, em termos de qualidade do trabalho. Hoje em dia está tudo confuso. Todo mundo se encontra na internet. A própria MTV, consciente disso, transferiu para a televisão-internet sua sessão de clipes, desdobrando-se em dois canais, um mais e um menos interativo. A dificuldade de se clicar www.mtvoverdrive.com.br é a mesma de se clicar www.porcasborboletas.com.br. A cena independente finalmente encontrou seu espaço, chegando a ele por uma via diferente da cena estabelecida, mas se encontrando com ela nesse lugar-em-comum. Superado esse problema de divulgação, é hora das bandas mostrarem serviço, em termos de estética, de qualidade de trabalho. É isso o que essas quatro bandas acima vêm fazendo. Não há por que ser complacente com elas, com o argumento salva-tudo: “porra, são bandas independentes…”. Independentes ou não, isso não interessa mais, é um problema antigo. Nenhum trabalho deve ser pensado a partir daí, mas sim do que ele propõe, do que ele oferece, do que ele é. E essas bandas, juntamente com algumas outras mais, podem prescindir daquele argumento salva-tudo, da complacência que ele gera, para fazer valer seu som, sua poética, sua cara. O novo cenário de música no Brasil terá que, em algum momento, passar por isso: pela valorização da estética, salve-se quem tiver o que dizer. Se não, será sempre um circuito menor, coisa de menino. 2007 tem que estar à altura de 2006.

Fora do Eixo

19 de Março de 2007 @ 22:24 por porcas

Orson Welles anunciou, em programa de rádio de mil novecentos e pouca coisa, a invasão da cidade de los angeles por seres extra-terrestres , no que inaugurou o cinema via rádio. E o blog do Porcas não se faz de rogado e anuncia, nesse post histórico, a invasão da cidade de são paulo por esses angeles que são os meninos e meninas do Circuito Fora do Eixo. (Antes que esse texto se desenvolva, convém matar a sede dos leitores mais curiosos: Orson Welles anunciou a invasão dos ETs no Loaded e-zine, ainda em suas primeiras edições).
Pingando o mouse nessa palavra aqui ó, você conhecerá detalhes dessa invasão. Ficará sabendo o que é o Circuito Fora do Eixo e seu último festival, o Festival Fora do Eixo. Se você não quiser pingar, e preferir continuar seguindo a trilha dessas mal trassadas linhas (”mal trassadas” a gente escreve assim, pelo mesmo motivo que faz o Guimarães Rosa escrever “dansa” quando o assunto é suingue corporal harmonioso), o blog do Porcas explica tudo, mais ou menos, como sempre. O Festival Fora do Eixo foi um evento realizado em São Paulo na semana passada com a apresentação de 20 bandas não-oriundas do assim chamado Eixo Rio-São Paulo, onde se concentra grande parte dos meios de comunicação de circulação nacional, mais uma rodada oficial de bate-papo sobre a situação da cena de música independente no Brasil, mais cinco centenas de bate-papos informais sobre o esse assunto e outros a ele adjacentes.
O Porcas Borboletas se apresentou na sexta-feira, para o que desembarcou na cidade de São Paulo na quinta, o que nos impossibilita de prestar qualquer relato sobre os três dias anteriores do festival. Da mesma forma, esse que escreve também se vê impossibilitado de relatar o que se passou no último dia do festival, já que no domingo à noite já estava no seio de seu lar. Mas como nosso blog é democrático, e não quer a atenção só pra si, transforma essa próxima palavra em caverna a ser descoberta, o clique do mouse sendo o “abre-te sésamo”: o blog do Espaço Cubo conta tudo e também aponta outros links.
Mas o que só o blog do Porcas viu? Só o blog do Porcas viu as duas rodadas de discussão sobre a cena independente, sobre o fazer música, sobre o que é estar casado, sobre a experiência de ter filhos, sobre como faz falta um som no carro do Enzo Banzo, realizadas de maneira itinerante anhanguera-ida e anhanguera-volta no Gol 1000 de nosso vocalista esquisitão. Isso porque já é tradição entre nós essas reuniões de 10 horas seguidas, tempo de que dificilmente poderíamos dispor em nossas vidas de vagabundos ocupadíssimos. Além disso, só o blog do Porcas viu essa cena que também já é uma tradição entre os borboletas: tomar banho no posto de gasolina pra não se atrasar para o evento. Como a fissura era infinita para conhecer o show do República e para rever o showzaço espetacular violentíssimo de nossos megabróderes do Vanguart, mais uma vez foi banhozinho em banheiro vagabundo: “Enzo, me empresta o xampu?”. “Taqui”. “Aném, que bosta de xampu…” Chegamos em sampa, descemos a Rua Augusta a sessentinha por hora, os capiaus deslumbrados com o espetáculo do baixo meretrício paulistano, mais um diálogo envolvendo Enzo Banzo:
“Enzo, você está com essa cara de medo, que vergonha. Você é vocalista de uma banda de rock, tinha que estar viajando na poesia desse underground fedorento…”. “Que isso, véi, pode não estar parecendo, mas eu tô viajando pra caralho”.
Infelizmente, a má acústica da casa de shows, a Vegas, comprometeu um pouco os shows da República e do Vanguart. Não a ponto de impedir, é claro, as fartas lágrimas de vários marmanjos, emocionadíssimos com o som do helinho, do douglas, do david, do reginaldo e do lazzaroto. Finda a balada, o pessoal chega em casa esgotado e feliz, na companhia do sol do trópico de capricórnio.
Na sexta-feira, dia de show, muita leseira no disputadíssimo piso de taco da casa do moita. Todo mundo na horizontal o dia inteiro. Muita resmungação. Grunhidos. Bando de conde drácula. Mesmo com um puta cansaço, e enfrentando problemas graves como a falta de nosso teclado, elemento fundamental para nosso corpo timbrístico, o Porcas se esmerou e fez o possível para superar as adversidades. Talvez não tenha sido um show top da banda, mas, como se diz aqui em minas, nem todo dia é dia santo. Mas a noite valeu pela presença de grandes amigos e parceiros das antigas (estavam lá o titio Alfredo Bello, que produziu e gravou nosso disco; o Wagner Schwartz, parceiro de altos projetos; e o grande Leonardo Nakabayashi, que mixou brilhantemente nosso disco e fez o PA esse dia, contornando os muitos contratempos com a mestria de sempre.) Além desses amigos-colegas, honrou a noite a presença de tantos outros amigos-amigos, e de tantos amigos-comparsas-companheiros-nessa-onda-de-banda-e-de-luta-pela-circulação-livre-de-trabalhos-de-qualidade-brazil-mundo-afora. Puta responsa tocar pra gente assim tão inteligente, tão coração aberto. Nem vou citar as bandas ali presentes, pra não correr o risco de esquecer alguma, mas estavam lá várias bandas FODAS do novo rock brasileiro.
Tanto que o amanhecer foi a celebração desse encontro. Bebeu-se e riu-se muito até as 9 horas da manhã. A ata dessa reunião acabou sendo a inscrição que cada um deixou no Herói Hesitante que a Laya, do Quarto de Cinzas, levou pra casa. Muito amor, amor de verdade, amor de jagunço, e com viadagem.
O bate-papo à tarde, no Sattva, talvez tenha sido o grande momento do festival. Com o nosso Talles Lopes compondo a mesa, junto com o finíssimo Aarão, do Camundogs e da Catraia Records, do Acre, e nosso guru Pablo Capilé, mais o pessoal do Espaço Cubo (Lenissa, Marielle; eta povo inteligente!), mais a Mariana Soldi, fazendo a coisa funcionar, com a competência e a entrega de sempre, mais os caras do Escárnio e Osso!, mais os caras (geniais, sempre) do Load e-zine, mais a Walquíria Raizer, escritora de grande talento do Acre, com seu livro quase pronto, mais produtores e jornalistas de São Paulo, mais e mais e mais. Para coroar a noite, uma canja dessa banda maravilhosa, com quem o Porcas tantas vezes se encontrou ao longo dos últimos meses por essas estradas da vida: Macaco Bong!
Pra se ter idéia do que foi essa roda, basta dizer que o final da discussão foi tão catártico, tão estimulante, tão atômico, que nosso deslumbrado de plantão Danislau Também mais uma vez se viu obrigado a dar um efusivo abraço naquele que é, segundo ele, o maior produtor de textos orais desde Cícero, o romano: Pablo Capilé. Oratória em nome da ação, é bom dizer, não o contrário. Esse povo sabe o q está fazendo. Os alquimistas estão tomando cerveja com a gente. Orson Welles sempre teve razão. Star fora do eixo é mais que estar de quebrada, geograficamente. É criar uma via entre a mão e a contramão, é star fora do eixo em termos de comportamento. Star fora do eixo é. E isso é muita coisa, gurizada.

mapaEIXO1 - mapaEIXO1

Além do palco

13 de Março de 2007 @ 21:04 por porcas

Dm - Dm Dm - Dm Dm - Dm Dm - Dm Dm - Dm Dm - Dm Dm - Dm Dm - Dm

O Guimarães Rosa recomendou a Deus que, se ele voltasse, que voltasse armado. Não há notícia de sua volta, mas o boêmio sabemos que à boemia voltou, armado de seu bom e velho violão. Arma branca, arma zen. Para onde vai o boêmio com esse diGiorgio nas costas e esse toc toc nos sapatos? Por enquanto, deixá-lo partir, pois é isso que ele quer, para voltar nosso olhar para essa figura exemplar, aparentemente secundária, de tão discreta, à porta de sua casa com seu sapatinho silencioso dando adeus ao homem que ama. Mesmo nos dias de máxima inspiração, em que seu violão soasse como um dilermando reis, que sua voz soasse como a de um nelson gonçalves, dificilmente o boêmio conseguiria superar a nobreza de sua patroa, exemplo máximo de tolerância, de saber-amar: amor de quem ama sobretudo a liberdade do outro.
Canta o boêmio, com sua voz de nelson gonçalves e seu violão dilermando:

Acontece
Que a mulher que floriu meus caminhos
De ternura, meiguice e carinho
Sendo a vida do meu coração
Compreendeu
Me abraçou e dizendo a sorrir
Meu amor você pode partir
Não esqueça o seu violão
Vais rever
Os seus rios, montes, cascatas
Vai sonhar em novas serenatas
E abraçar seus amigos leais
Vá embora
Pois me resta o consolo e a alegria
De saber que depois da boemia
É de mim que você gosta mais

A importância de festar. Ou: A revolução pela balada

8 de Março de 2007 @ 11:41 por porcas

dead - dead

Nas celebrações para Dionísio, como todos sabem, por enciclopédia ou por prática, o pau quebra. É a festa dos sentidos; beijação, churrasco mal-passado, sauna, piscina, todo mundo com toalhinha branca, beijação, sexo sem grilo. Uma festa pra baladeiro nenhum amarrar na vaquinha. E o melhor de tudo é que aquilo ainda tinha um sentido ritual na Grécia das antigas. Não era um sexo sem compromisso. Tudo corria em nome da busca da fertilidade. Fertilidade do chão, ranguinho abundando no terreno pedregoso da terra de Odisseu. Então nasce aquela imagem linda do gozo sobre a terra, do sêmen na pedra, dos corpos jazendo extenuados nesse espaço entre Gaia e Urano, Terra e Céu (esse ambiente de vida que aliás só foi possível depois da trepada federal entre tais deuses, a Deusa-Mãe e o Deus-Pai, cada um se virando para um lado da cama, no meio deles nós os homens os outros animais as plantinhas e as pedras sobre as quais gozar futuramente.)
Hoje é claro que o papo é outro. Não rola mais aquela ansiedade: será que o chuchu vai vingar? Tá tudo lá, no supermercado. O problema é ter ou não ter grana pra comprar o chuchu e o feijão. Vou consultar a Barsa pra ver pra qual deus eu rezo, modo de fazer brotar dindin dessa terra pedregosa que é a economia brasileira. Seja ou não seja outro deus, dinheiro não é tudo na vida. O papo por enquanto é outro. Fertilidade, e aquela fertilidade que não possa ser cifrada por $.
Porque fertilidade diz respeito a muitas outras coisas que não apenas chuchu e dindin. Fertilidade de idéias, por exemplo. De sentimentos. “Fertilidade” sugere coisa nova, elemento renovador da vida. Linda aquela canção católica, quem foi coroinha conhece: “Nem só de pão o homem viverá…”. Também essa outra, daquela banda que não gosta de padre, não gosta de madre, não gosta: “Você tem fome de quê?”
Disso tudo resulta linda a associação das festas dionisíacas modernas com a fertilidade de novas idéias, de novos sentimentos, novas visões de mundo – elementos renovadores desse mundo careta construído a partir dessa velha lógica patriarcal e capitalista vai tomar no cu caralho.
Donde a importância de festar. Todo mundo junto amigo sorrindo. A lógica e a ética da noite, tão diferentes da lógica e ética do dia. O tempo e o espaço da noite, tão outros. O livre vaivém. A hora e a vez do cabelo crescer. O extra-ordinário. O corpo liberto das convenções, dando pala, rastando o joelho no chão, dançando, iansã, dansar. A hora e a vez de tirar a camisa e gritar utererê. Paquerar, beijar na boca, namorar. Proibido proibir. Festar é saúde pura, principalmente para quem festa bem. Dionísio nunca se contentou com happy hour. E distraídos venceremos.

(foto: calourada da UFU, show do Dead Smurfs)