vinte duas horas carnavais

juntos3 - juntos3

Quantos dias podem caber em 22 horas! Quantas paisagens, quantas paixões, quanta dor, quanta estrada, quantas barras de cereais de avião, quantas nuvens… quanta cachaça. Quando se vai à sauna tem q sair com cheiro de eucalipto, senão ninguém acredita. O Porcas Borboletas dá satisfação, conta tudo, tudo mas tudo mesmo, nunca vi tanto tudo na minha vida. Recife. Ô vontade de nadar nesse nome, palavra gostosa demais, apontar o nariz rumo ao nordeste brasileiro é a melhor coisa que um homem pode fazer nessa vida.
Saímos de Uberlândia às 16 horas da última segunda, dia 3 de fevereiro, de carro rumo à nossa capital federal, onde pegar íamos o busão aéreo no dia seguinte. Fomos direto para a casa de nosso amigo e poeta Gustavo Lucas, abastecendo prontamente sua geladeira com umas antarcticazinha em lata aí. Violãozinho na mão, compondo canções a serem esquecidas, rindo muito da vida, nós, os porcas - só viajando pra termos esse tempo todo pra namorar - mais o gustavo footloose, o pai da gentileza. Maior papo furado do mundo esse nosso de tentar se preservar para show do dia seguinte, saindo mais cedo pra dormir bem na noite anterior. Estarmos juntos, e na estrada, inaugura necessariamente regime de urgência, então é balada nervosa sempre. Issaí, são quase quatro da manhã, avião partindo às 9, tô até vendo esse bando de nego destrambelhado morrendo de sono tomando surra de horários e documentos e trevos de brasília, o duelo com as burocracias deixando a gente sempre com cara de menino.
Também o duelo pelas janelinhas causando o mesmo efeito: deixa eu da última vez foi você ah mas c dorme o tempo inteiro é um brucutu não sabe o q é viajar na vida. Em recife, hotelzinho desses que a gente nunca ia poder pagar - músico é um cara muito quebrado vivendo vida de rei. Restaurante, olha como a cara do rafa melhora quando ele tem pela frente o duelo com um prato de camarão ao molho de alcaparras. Ricardim averiguando com o garçom se é possível trocar o jantar por uma dosinha de uísque. Tudo na vida deixa esse povo com cara de menino! Tales, o matemático da equipe, aquele que soma 2 e 2 e ainda dá 4, já havia calculado: gente ó, são 22 horas em recife. Lamber cada hora então, recife taí, é janelinha pra todo mundo. Como só é possível ocupar um lugar de cada vez, fazer o impossível. Deixar-se ocupar por todas as recifes de sempre ao mesmo tempo. Para isso valham-nos todos os amigos, pernambucanos ou não: estar com eles foi o melhor da festa. Eles sabem disso, não vamos citar nomes para não comprometê-los, gente boa desse jeito andando com engraçadim de uberlândia… Amor infinito, essa nobilíssima brodagem é deus-na-terra, estarmos juntos é oração edificada a esse céu que já vai amanhecendo, as cores da manhã estão aí para encher de poesia essa festa que parece vai acabar nunca. Acabou porque a polícia chegou. Foné foné, sirenes e tudo. O Ricardim, que tava felizão, só percebeu depois, continuou batendo o pezinho e vibrando com o som da sirene por uns 10 compassos ainda. É os home, Ricardim. Alguém disse: cara, nosso avião é às 9. Agora são 6, se os home não interfere a gente perdia o vôo, continuava surfando nessa balada quaresma-toda afora. Ficar lembrando essas coisas acaba sendo isso, surfar hoje nas ondas de ontem. Toda onda é eterna, morrerem as ondas na praia daquele jeito, redenção pelo branco e pelo shhh, são as eternas reticências. Daqui a cinquenta anos neguinho ainda tá pegando jacaré nessas ondas de recife.

(Pegando jacaré, agora, na delícia que foi o Festival Rec-Beat. Perfeito, grade daquelas, grade imbatível. Senegaleses e argentinos e brasileiros e mais o pato fu, que por sorte nossa não são filhos de país nenhum, por serem filhos de todos)