Acre, doce Acre

rainforest - rainforest

Sempre coloquei em dúvida se, em um festival, o mais importante seriam os shows. Muito mais coisas acontecem, além do play. Por exemplo: o lugar acontece. As pessoas do lugar. É evidente que os shows chamam mais atenção, por serem o elemento aglutinador, a fogueira em volta da qual as pessoas se reúnem. Mas essa discussão é coisa do passado. Isso é um problema pré-acreano: distinguir palco e vida. No Acre, tudo é múltiplo, deliciosamente confuso. No Acre, tudo é floresta.

Foi a primeira vez que os porcas voaram juntos. Avião ainda é novidade pra gente. Foram horas e horas entre aeroportos, aeromoças, castelinhos de nuvens e serviços de bordo com goiabinha da bauducco (o Talles reclamando disso foi genial: justamente quando conseguia dormir, deparava-se com a insistência da comissária de bordo em acordá-lo, como se estivesse oferecendo a ambrosia dos deuses: “_Senhor, senhor, goiabinha…”). Esse universo todo, justamente nos cem anos de vôo do 14 bis, sôou como a viagem de barco do filme Apocalipse Now. Subindo, SUBindo, SUBINDO. Dava aquela sensação de se estar indo para uma outra realidade, uma outra dimensão. Descemos da nave. Olhando para o céu, vem na cabeça a pergunta do Raul: “será esse o mesmo céu de sempre?”

Não era. Impossível descrever aqui o barato do Acre. Tem que ir lá e ver. Por enquanto, vale a pena dar uma olhadinha no mapa. Pertinho da Bolívia, perto do Peru também. Mais perto do Pacífico que do Atlântico. Perto de Deus. (Não confiem muito na minha geografia. É, como toda geografia, uma geografia muito pessoal). No Acre, são outros apetites, outros sabores. A presença indígena é muito forte. Psicodelia aqui é borracheira. As pessoas têm uma beleza exuberante, e são de uma gentileza encantadora. O Estado tem mão leve, trabalha junto com a malucada. Lembra sabe o quê? As utopias do tempo das grandes navegações. Quem disse que as utopias morreram, caralho? (No Parque Chico Mendes tem uma foto do Chico Mendes segurando o filhinho dele de um jeito que me fez rir às lágrimas. O Chico Mendes foi, antes de tudo, um grande pai. Quem disse que as utopias morreram?)

Prova o contrário o Festival Varadouro, e as tardes em que passamos juntos. A tarde de sábado, por exemplo, na Usina João Donato. Outro parêntese: quis perguntar ao Daniel Zen se esse João Donato seria o pianista, compositor de “Beira do Mar”, mas fiquei calado. Depois descobri que era, e que o João Donato é acreano. Pra que tentar explicar o Acre? Sabe aquele som do João Donato, aquele estilo particularíssimo dele de tocar e de compor? Aquilo é o Acre, meninos… Na Usina João Donato tava um monte de gente discutindo formas para se construir uma interferência real e positiva sobre a sociedade, principalmente através da música e de outras artes a ela agregadas. Estavam os representantes da maioria dos festivais da ABRAFIN, que é a associação brasileira de festivais independentes, mais produtores de cada uma das capitais do Norte, mais jornalistas, mais músicos, mais. Eta povo inteligente! O negócio, que já está fedendo, vai feder muito ainda. Isso para a gente é perfume.

No meio do show do Porcas veio uma borboletinha e ficou sobrevoando o palco. Depois veio o pessoal perguntando se a gente sempre fazia isso, levar borboletinhas para os shows. Disse que não, foi coisa do momento. Aí fiz a minha cara de mystico: “foi a floresta”. Antes do show, havia percebido que, para que nossa apresentação fosse massa, bastava não criar uma barreira entre ela e nossa vivência no Acre. O show teria que, de fato, se situar no local onde aconteceria. Não é aquilo de trazer uma coisa pronta de Minas e dar um play em Rio Branco. A coisa teria que ser acreana. E foi. Todo mundo ficou surpreso com a participação do público, parecia que estávamos em casa. Depois, as pessoas me abraçando, felicitando pelo show, possivelmente acharam que era demagogia a minha versão: “gente, a culpa é de vocês.”

Essa confusão entre o playing e o listening nos faz voltar ao problema do primeiro parágrafo. No Varadouro, não cabe o ponto de vista de sempre, nem os velhos parâmetros de menos e mais, nem as velhas lunetas que herdamos de Descartes, o que coloca um abacaxi na mão dos muitos jornalistas ali presentes. Apreender o Varadouro é um desafio, porque o que aconteceu ali é uma outra coisa. Nada é mais importante, nada é menos, mas tudo é competente. Riqueza são diferenças. Estamos a falar de mato? O Varadouro é antes e depois, mudou a vida de quem esteve lá. Todo esforço é vau, para nós os sertanejos. Todo esforço é varadouro, para nós, os seringueiros. O Varadouro é todo mundo amigo sorrindo. O Varadouro é um festival florestal.

(postado por danislau)

16 respostas para “ Acre, doce Acre ”

  1. Talita Oliveira disse:

    O texto expressa o festival na sua essência. Demais.

    Tô sem palavras…

  2. Natércia Mendes disse:

    Nossa encantada com o texto totalmente profundo …
    Bem eu fico bastante contente por ter gostado do nosso acre, que sempre é muito recepitivos, amigo e acolhedor ao que aqui passam, fico contente também por iniciativas como essa esses intercâmbios entre artistas pois é uma grande oportunidade de conhecer algo novo e bom assim se encaixa a banda Porcas e Borboletas , bem pricipalmente você e o Enzo na qual me tornei totalmente fã e a minha felicidade é conhecer de perto grandes artistas como vocês e outros também que participaram do Varadouro … Imagina jamais saberia que são vocês ! Bem apartir do momento que eu estava na Usina de Artes João Donato fui passando lá pelos estúdios e ouvi um som ai fiquei acanhada de ir escultar mas a vontade e o desejo superaram a vergonha foi naquele momento que a banda entraria na minha vida como a trilha sonora do meu momento(risos) um som doce , que acalma sinceramente sem definiçoes nem alternativo , nem indie , nem rock’n'roll e SIM Porcas Borboletas é uma definição pra banda de vocês totalmente ímpar …!
    Nossa maravilhadacom vocês
    PS: (só o que toca no meu mp3 é vocês… susbtituie todas as músicas sem sentido por algo que realmente vale a pena escultar)
    Fã especialmente de Danislau hahahaha

  3. Cidão! disse:

    preciso nem dizer nada!
    O Porcas fez o que poucos conseguiram fazer: história!

    A passagem deles por aqui foi antológica. E tem muita gente que não vai mais desgrudar dessa banda! A borboleta, foi uma forma de o Acre agradecer pela sua atenção e pelo seu talento! A banda, vai ficar nos nosso corações e, claro, nos ouvidos!

    Sem demagogia, VOCÊS SÃO DO CARALHO!

    Até a próxima…

  4. Walquíria Raizer disse:

    Olá Borboletas!
    O texto ficou “bonito demais gente”
    Tô até orgulhosa “docêis”.
    “Ô gente boa sô”
    rsrs
    Estamos aqui, cantando com vcs.
    Ah, e estou pensando em leiloar a minha camiseta da banda…Agora que a banda é famosa no Acre, com o dinheiro eu, a Violeta e a Milena podemos ir pra algum festival ai…rsrs
    … e outra coisa, pode ir me visitar no meu blogger, senão no próximo Varadouro, a produção não contrata mais nenhuma borboletinha pra ser figurante do show. Inclusive aquela que contratamos está aqui na minha sala cobrando o cachê..
    rsrsr
    bjão pra todos,
    Walquíria

  5. Janaina Almeida disse:

    Que som é esse? Caracaaaaa…
    O Acre e suas particularidades!!! Tem coisas que só encontramos, no cantinho do Brasil, mas pecisamente na Amazônia sul ocidental!!! Respeito….sabedoria… Identidade… é tudo!
    Parabéns… simplesmente amei o som e a performace de vocês! Foi encantador ver as pessoas cantando as músicas e pedindo bis no final do show… Espero vê-los na próxima edição do Varadour, já na Usina João Donato. Um grande abraço.

  6. Janaina Almeida disse:

    Que som é esse? Caracaaaaa…
    O Acre e suas particularidades!!! Tem coisas que só encontramos, no cantinho do Brasil, mas pecisamente na Amazônia sul ocidental!!! Respeito….sabedoria… Identidade… é tudo!
    Parabéns… simplesmente amei o som e a performace de vocês! Foi encantador ver as pessoas cantando as músicas e pedindo bis no final do show… Espero vê-los na próxima edição do Varadouro, já na Usina João Donato. Um grande abraço.

  7. Aarão Prado disse:

    Danislau, o show do porcas me deixou de queixo caído, e agora você me deixou sem palavras… Logo eu que sempre me julguei bom com elas. Vai ver que algumas vezes é melhor calar, e sentir, ainda mais quando se trata de algo intenso como o clima que rolou durante os dias do festival.
    Faço minha suas palavras.
    O acre foi Mineiro por 40 minutos, e o Porcas será sempre Acreano depois do varadouro…

    Saudações musicais e viva os momentos mágicos como os que vivemos no último fim de semana.

    Aarão Prado.

  8. Gilberto Lucas - Camundogs -AC disse:

    É moçada, fico feliz que vcs tenham gostado do kit festival-cidade-pessoas-público-e-borboletas.
    Particularmente gostei muito do som, das letras e da irreverência.
    Parabéns pelo belíssimo show, e quem sabe no próximo aparece até um lindo porquinho para fazer par com aquela borboleta.

    Abraços
    Gil
    Camundogs

  9. Walquíria Raizer disse:

    Gil, querido guitarrista da Camundogs, contratar uma borboleta pro show dos mineiros já não foi tão fácil. Não promete porquinho não!!!!!!
    Já estou até imaginando o Varadouro III, e a assessoria de imprensa das bandas perguntando se tem direito a macaco ou não. Eu me demito, juro!
    rsrs
    bjão, Walquíria

  10. Ney Hugo disse:

    opa, alguem falou macaco?

  11. Natália Queiróz disse:

    Dez minutos após o início do show eu olhei para uma amiga e disse: Que que é isso??? Durante o show inteiro eu continuei…que que é isso??? O que QUE É ISSO??? E complementei com…”Que som é esse”? “Que banda é essa”? “Que performace”!!!! E no final… eu tava pedindo “BIS”…como todo mundo!!!
    Meninos, FANTÁSTICO!!!! Nunca ví nada igual…
    Danislau…AMEI o texto!!! O Acre é tudo isso aí e muito mais…pena que vcs ficaram pouco tempo na “Terrinha”…
    Espero vê-los em breve!!!

  12. Janaína Marszalek disse:

    Eu entendo perfeitamente esse sentimento de vcs. Sou uma acreana por opção não na verdade de CORAÇÃO! O Acre tem dessas coisas mesmo, encantar…
    Parabéns pelo show!! Fiquei de queixo caido, pulei, dancei não me contive quando vi dois de vcs dpois do show fui lá e dei um super abraço. Ja baixei as músicas do Trama Virtual e não paro de ouvir. Grande show!!!!
    Espero que o retorno seja breve!!!
    Forte abraço

  13. Thiciana Bezerra disse:

    Pow, mt massa esse texto!
    E mt bom vc ter curtido o ac, e realmente, pra saber como é, só vindo aqui. É uma outra essência, é td o que vc falou ali e muito mais…
    O terrinha boa! =)))
    De boa, espero que vcs voltem váááriassss vezes aqui.
    Show de vcs é mt bom, vcs tomam conta do lugar, fazem todo mundo que ta ali querer curtir junto…
    Massa msm… bjão pra todos da banda..!

  14. Gabriel Naif Andrieli disse:

    Os Porcas já são quase acreanos!!!!
    Assim como a maioria das pessoas que vêm para o Acre!!! Assim como eu que já adotei este estado!!!!
    Sem comentários o show!!!!

  15. Bibi disse:

    E aprende a construir todas as suas estradas no hoje……

  16. Rogério disse:

    Espero que vcs tenham esperimentado a borracheira vinda do acre.Mariri.Chacrona.Para a música,é ótimo.